por Paula Sacchetta
O Oriente Médio antes de 11 de setembro de 2001 era tido como mágico e misterioso. Hoje, para a grande mídia é o berço do terrorismo e do fundamentalismo. A mídia passou a tratar os povos árabes como terroristas, fundamentalistas e perigosos para a democracia ocidental. Mas, afinal, que democracia é essa onde não são levadas em conta diferenças culturais e, muito menos, soberanias nacionais? Que democracia é essa tão pregada pela mídia e pelo Senhor do Mundo, mister Bush, onde um ditador que mata milhares de civis é enforcado – prática da Idade Média, usada em pleno século XXI – e outro invade e bombardeia países há mais de sete anos e nada acontece?
Nos jornais e revistas de grande circulação, mais uma vez, não vemos o número de mortos em Bagdá, desde a invasão do Iraque pelos EUA em 2003, mas uma nota: “Bush foca o terror: o presidente dos EUA, George W. Bush, destacou ontem a necessidade de reforçar o combate ao terrorismo no mundo. Bush acusou Síria e Irã de patrocinarem o terror e defendeu sanções mais rigorosas contra o Irã e a Coréia do Norte por conta de seus programas nucleares (…).” (jornal Metro, 29/09/2008) E o terrorismo de Bush? Desse, ninguém fala. Esse, ninguém combate.
Na Folha de S. Paulo, um “terrorista suicida” mata 19 pessoas e deixa outras 72 feridas, entre elas, mulheres e crianças. Não se diz porque esses atentados acontecem. Nem que o povo iraquiano luta há mais de cinco anos contra os soldados do império, que invadem seus lares e matam suas famílias. Se diz sim, ainda na Folha, que “as condições no Iraque e particularmente em Bagdá são consideradas as melhores dos últimos quatro anos, segundo dados dos EUA, graças, parcialmente, ao aumento do contingente militar americano em campo a partir de 2007″.
Então os iraquianos são mesmo loucos! Terroristas e fundamentalistas. Deveriam estar agradecendo a invasão, mas não, ao invés disso, lutam contra os soldados. Assim, o povo dos EUA também é louco. Porque nem eles apóiam seu presidente? Porque o índice de apoio da população dos EUA à invasão do Iraque é quase tão baixo quanto o apoio à Guerra do Vietnã? Vai entender…
Uma matéria da revista Piauí, de maio de 2008, de Yonatan Mendel, fala do jornalismo israelense. No vocabulário de tal jornalismo, os árabes são terroristas suicidas, matam civis mulheres e crianças, seqüestram e alegam. Israel apenas responde e se protege da violência Palestina. Nunca mata civis, mulheres e crianças com seus mísseis. Nunca se diz que seus mísseis caem sobre casas e hospitais, mas se fala sobre “assassinatos dirigidos” à lideres, sempre de altíssimo escalão dos grupos “terroristas” e “fundamentalistas”. As Forças de Defesa de Israel nunca alegam, confirmam.
O jornalista israelense conta: “numa época em que havia muitas incursões israelenses em Gaza, perguntei o seguinte aos meus colegas: ‘Se um palestino armado cruza a fronteira, entra em Israel, dirige até Tel Aviv e atira em pessoas nas ruas, ele será o terrorista, e nós seremos as vítimas, certo? Porém, se as FDI cruzam a fronteira, dirigem vários quilômetros Gaza adentro e começam a disparar contra os atiradores palestinos, quem é o terrorista e quem é o que resiste? Como é possível que os palestinos que vivem nos territórios ocupados nunca possam recorrer à autodefesa, enquanto o Exército israelense é sempre o defensor?’”
Hamas ou Hezbollah são descritos como organizações e não partidos ou movimentos políticos que surgiram para proteger seu povo e que só têm tanto apelo popular por conta da situação em que se encontram a Palestina e o Líbano.
E fica uma pergunta: nossa mídia, brasileira, age de forma diferente da israelense? Porque um jornal que se diz “apartidário e multicultural”, como a Folha de S. Paulo, coloca sob a máscara de notícias, opiniões preconceituosas e discursos falaciosos?