A neurose da abordagem política na cobertura internacional

18 09 2008

Por Ricardo Régener

“Acidente da Spanair mata 153 na Espanha”, “Delegação norte-americana escolhe pugilista anti-China para carregar bandeira no encerramento dos jogos olímpicos”, “Vladimir Putin atira em tigre e salva equipe de jornalistas”. O que essas notícias publicadas recentemente na mídia internacional têm em comum? Uma busca contínua por inserir todo e qualquer acontecimento em um contexto político. O mundo, meus caros, é hierarquizado pela mídia através das lentes da política, e em mês de jogos olímpicos, guerra na Ossétia do sul e de grande acidente aéreo na Espanha, essa busca por paralelos políticos ganha contornos de neurose: a equipe chegou a Pequim de máscaras? Mensagem clara da Casa Branca para o Palácio do Povo. A atleta exacerbou-se na manifestação do seu patriotismo e participou de um movimento pró-Tibete a dez anos atrás? É algum governo do mundo que quer roubar a cena pra propagandear a sua ideologia. Putin apareceu sem camisa ou atirou em um tigre? É o Kremlin querendo dar um recado ao mundo sobre o poder do seu presidente. No dia seguinte a uma tragédia na Espanha, os jornais já pensam em como tal acontecimento vai influenciar, reorganizar ou redefinir as relações de poder dentro dos Palácios governamentais.

O que garante, no entanto, que a cobertura que centraliza-se nos acontecimentos dos palácios e nas relações de poder é a ideal para a cobertura do mundo? Porventura o mundo não é algo a mais do que a relação entre centros de poder? É verdade que a política desempenha papel relevante na vida das pessoas, mas o que não dizer do dia a dia das ruas, da dieta da população, dos hábitos, das manifestações artísticas que fazem sucesso, uma cobertura jornalística que emanasse desse ponto de partida não poderia ser igual ou até mesmo melhor do que aquela que prioriza a política? Talvez levasse até mesmo a conclusões menos estranhas sobre o mundo. De fato, os seres humanos não são ingênuos e já estudaram política e publicidade o suficiente para entender quais desdobramentos certas atitudes de propaganda podem ter (a Guerra Fria é talvez o exemplo mais proeminente disso), no entanto, havemos de convir que nem tudo na vida se explica em termos políticos: pessoas proeminentes abandonam cargos de importância por quererem se dedicar à família e os filhos, portas-bandeira de olimpíadas podem ser escolhidos unicamente pelo seu legado esportivo e tragédias aéreas podem acontecer simplesmente porque são fatalidades às quais todos estão expostos. Ingenuidade? Simplismo? Em boa parte das situações, possivelmente. A cobertura jornalística internacional mais sensata está, no entanto, relativamente distanciada das lentes de aumento que esmiuçam e analisam os gabinetes presidenciais em seus detalhes, e em alguma medida mais próxima de análises um pouco menos divagantes, mais próximas do que as pessoas realmente pensam e vivem. Não se trata de desprezar as deliberações dos altos escalões, mas de pensar que, talvez, o que muitas pessoas conversam no bar sobre a nova loja de R$ 1,99 do bairro diz mais respeito à política chinesa do que um único porta-bandeiras na abertura dos jogos olímpicos…

Imagine agora uma mídia que, em sua hierarquia, elegesse os esportes como centro de sua cobertura. O acidente aéreo da Spainair seria um forte fator negativo na próxima derrota da seleção espanhola de futebol em uma grande competição internacional e, o peitoral respeitável de Vladimir Putin, divulgado amplamente pela mídia Internacional, seria tido como conseqüência do crescimento das modalidades do halterofilismo nos últimos 30 anos…








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