Fecha o cerco contra o Paquistão

2 12 2008

por Marcela Cataldi Cipolla

Terroristas paquistaneses são os principais suspeitos dos ataques contra uma das principais cidades indianas. O governo do país vizinho e a comunidade internacional pressionam o Paquistão, acusado de proteger terroristas.

Apesar de outro grupo ter assumido a autoria dos atentados em Mumbai, a polícia indiana acusa militantes do Lashkar-e-Toiba (Exército dos Puros), ligados ao Paquistão e exige maior cooperação contra os terroristas. Por outro lado, o país islâmico nega qualquer relacionamento com as explosões em Mumbai.

velas em homenagem as vítimas dos ataques em Mumbai, na Índia. Rupak De Chowdhuri/Reuters

A mídia está sugerindo que os assassinatos estavam vinculados a uma organização que luta pela separação da região da Caxemira. As disputas entre o governo de Islamabad e o país vizinho são antigas, no entanto, não havia tamanha movimentação dos veículos de comunicação desde 1998 quando entraram para o restrito grupo dos detentores de armas nucleares. Para amanhã está prevista a visita de Condoleezza Rice em Nova Délhi. Será que vai ajudar ou atrapalhar?

Folha Online – Especial Mumbai

Estadão

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Quase 200 mortos em Mumbai

27 11 2008

por Marcela Cataldi Cipolla

Ataques contra Mumbai deixam quase 200 mortos, atrapalham as negociações de paz com o Paquistão e assustam a mídia ocidental

Indianos lamentam as perdas e os estragos causados pelas explosões na antiga Bombaim

A princípio, O Globo, Folha, G1 e muitos outros veículos nacionais e internacionais contaram com poucas fontes (CNN, BBC, Reuters…) para informar sobre a tragédia indiana. No primeiro dia dos acontecimentos, a mídia brasileira apresentou um texto restrito e muito semelhante. As descrições, as fotografias e até os entrevistados eram os mesmos. Logo no começo (ainda no site), jornais como O Globo vincularam as ações com grupos terroristas islâmicos (o que mais tarde se confirmou, ainda que em parte).

Analisando as primeiras reportagens, o que mais chamou minha atenção foi a insistência em chamar Mumbai de Bombaim, a cidade mudou de nome há mais de dez anos! Não só é uma falha geográfica como também pode ser visto como algo tendencioso.

O nome Bombaim é uma corruptela da expressão portuguesa “Boa Baía”, a cidade antes de ser de domínio inglês foi colônia lusitana. O local foi batizado de “Mumbai” porque o antigo nome era considerado um resquício da colonização européia e alguns governantes decidiram que “Mumbai” estava mais de acordo com a cultura hindu. Coincidência ou não, os jornais do país ibérico ignoraram o novo nome.

A cobertura pelo periódico lusitano Jornal de Notícias

Público

O Globo

A versão eltrônica do jornal seguiu o erro e insistiu no termo antigo, até na manchete.

O mais estranho e confuso para o leitor foi a repentina utilização do nome oficial da cidade indiana no penúltimo parágrafo, sem nenhuma explicação está lá “ (…) Morador de Mumbai, disse à NDTV(…).” Um leitor mais desinformado (ou mesmo alguém que não estuda Geografia há mais de 10 anos) com certeza ficará confuso e talvez irá pensar que Mumbai se trata de um outro local.

Outro ponto discutível da reportagem é que a equipe de jornalismo optou por tratar o atentado como um ato de islâmicos fundamentalistas contra ocidentais. A palavra “terrorista” foi acionada logo no primeiro dia dos fatos, bem como foi dado espaço aos representantes do governo americano para falarem sobre os atentados. O grupo que assumiu a responsabilidade dos ataques, intitulado Deccan Mujahideen, foi vinculado a outros grupos radicais muçulmanos.

O poder das palavras usadas na cobertura jornalistíca para referir-se aos seguidores do islamismo acaba, mesmo que sutilmente, tendendo para um lado ou formando opiniões muitas vezes estereotipadas. Claro que o que ocorreu em Mumbai é um ato terrorista e que a prática de assassinatos (não importa a quantidade de vítimas) é altamente condenável e deve ser punida em um estado de direito. No entanto, é muito comum observar que as palavras como “terrorismo”, “ataques suicidas” e “fundamentalismo” são quase sempre destinada aos muçulmanos.  Será que só entre os muçulmanos há seguidores radicais? É altamente discutível a forma como os meios de comunicação tratam os povos árabes e as conseqüências disso para a sociedade.

O Hotel Taj Mahal, ponto turistico de luxo é atacado em Mumbai. Na era do terror a midia discute os perigos dos grupos supostamente ligados ao Paquistão.

O Hotel Taj Mahal, ponto turistíco de luxo é atacado em Mumbai. Na "era do terror" a mídia discute os perigos dos grupos supostamente ligados ao Paquistão.

Ainda, o pessoal do O Globo não só faltou nas aulas de Geografia como também nas de História. Uma interpretação justa dos fatos que estão acontecendo na Índia merecia citar que a rivalidade entre os povos na Índia existe há muito tempo, desde que Bangladesh e Paquistão integravam o território. Taxar todos os muçulmanos de terroristas fundamentalistas do “eixo do mal” é uma prática bastante difundida na mídia atualmente, é preciso ter cuidado.

Por causa dos alvos (hotéis, um restaurante e uma estação ferroviária) pode ter sido um ataque contra turistas, mas, ainda sim, é necessário cautela nos primeiros momentos.

Por último, uma questão ética, o texto informa que já foram mais de 200 ataques terroristas nesse ano naquele país. Mas, então, por que somente esse atentado foi amplamente divulgado? Volto a me questionar, será o conformismo? Ou o valor de uma vida gerada à esquerda do meridiano de Greenwich é maior para os meios de comunicação?

Outros periódicos

Até então, na maioria das vezes, os jornais foram mais contidos na cobertura, com informações repetitivas e quase sempre respeitaram o nome oficial da cidade que foi palco dos atentados.

O JB Online, ainda que de forma mais timída, também atribuiu a instabilidade politíca indiana aos muçulmanos (tomando emprestado um discurso quase preconceituoso da era Bush).


Estadão

A cobertura da Folha buscou fontes neutras e conseguiu uma matéria clara, contextualizada e desenvolvida de um modo mais adequado, abrangendo outros aspectos para explicar a atual situação indiana.

Novas informações da AFP

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