por Marcela Cataldi Cipolla
Ataques contra Mumbai deixam quase 200 mortos, atrapalham as negociações de paz com o Paquistão e assustam a mídia ocidental

Indianos lamentam as perdas e os estragos causados pelas explosões na antiga Bombaim
A princípio, O Globo, Folha, G1 e muitos outros veículos nacionais e internacionais contaram com poucas fontes (CNN, BBC, Reuters…) para informar sobre a tragédia indiana. No primeiro dia dos acontecimentos, a mídia brasileira apresentou um texto restrito e muito semelhante. As descrições, as fotografias e até os entrevistados eram os mesmos. Logo no começo (ainda no site), jornais como O Globo vincularam as ações com grupos terroristas islâmicos (o que mais tarde se confirmou, ainda que em parte).
Analisando as primeiras reportagens, o que mais chamou minha atenção foi a insistência em chamar Mumbai de Bombaim, a cidade mudou de nome há mais de dez anos! Não só é uma falha geográfica como também pode ser visto como algo tendencioso.
O nome Bombaim é uma corruptela da expressão portuguesa “Boa Baía”, a cidade antes de ser de domínio inglês foi colônia lusitana. O local foi batizado de “Mumbai” porque o antigo nome era considerado um resquício da colonização européia e alguns governantes decidiram que “Mumbai” estava mais de acordo com a cultura hindu. Coincidência ou não, os jornais do país ibérico ignoraram o novo nome.
A cobertura pelo periódico lusitano Jornal de Notícias
Público
O Globo
A versão eltrônica do jornal seguiu o erro e insistiu no termo antigo, até na manchete.
O mais estranho e confuso para o leitor foi a repentina utilização do nome oficial da cidade indiana no penúltimo parágrafo, sem nenhuma explicação está lá “ (…) Morador de Mumbai, disse à NDTV(…).” Um leitor mais desinformado (ou mesmo alguém que não estuda Geografia há mais de 10 anos) com certeza ficará confuso e talvez irá pensar que Mumbai se trata de um outro local.
Outro ponto discutível da reportagem é que a equipe de jornalismo optou por tratar o atentado como um ato de islâmicos fundamentalistas contra ocidentais. A palavra “terrorista” foi acionada logo no primeiro dia dos fatos, bem como foi dado espaço aos representantes do governo americano para falarem sobre os atentados. O grupo que assumiu a responsabilidade dos ataques, intitulado Deccan Mujahideen, foi vinculado a outros grupos radicais muçulmanos.
O poder das palavras usadas na cobertura jornalistíca para referir-se aos seguidores do islamismo acaba, mesmo que sutilmente, tendendo para um lado ou formando opiniões muitas vezes estereotipadas. Claro que o que ocorreu em Mumbai é um ato terrorista e que a prática de assassinatos (não importa a quantidade de vítimas) é altamente condenável e deve ser punida em um estado de direito. No entanto, é muito comum observar que as palavras como “terrorismo”, “ataques suicidas” e “fundamentalismo” são quase sempre destinada aos muçulmanos. Será que só entre os muçulmanos há seguidores radicais? É altamente discutível a forma como os meios de comunicação tratam os povos árabes e as conseqüências disso para a sociedade.

O Hotel Taj Mahal, ponto turistíco de luxo é atacado em Mumbai. Na "era do terror" a mídia discute os perigos dos grupos supostamente ligados ao Paquistão.
Ainda, o pessoal do O Globo não só faltou nas aulas de Geografia como também nas de História. Uma interpretação justa dos fatos que estão acontecendo na Índia merecia citar que a rivalidade entre os povos na Índia existe há muito tempo, desde que Bangladesh e Paquistão integravam o território. Taxar todos os muçulmanos de terroristas fundamentalistas do “eixo do mal” é uma prática bastante difundida na mídia atualmente, é preciso ter cuidado.
Por causa dos alvos (hotéis, um restaurante e uma estação ferroviária) pode ter sido um ataque contra turistas, mas, ainda sim, é necessário cautela nos primeiros momentos.
Por último, uma questão ética, o texto informa que já foram mais de 200 ataques terroristas nesse ano naquele país. Mas, então, por que somente esse atentado foi amplamente divulgado? Volto a me questionar, será o conformismo? Ou o valor de uma vida gerada à esquerda do meridiano de Greenwich é maior para os meios de comunicação?
Outros periódicos
Até então, na maioria das vezes, os jornais foram mais contidos na cobertura, com informações repetitivas e quase sempre respeitaram o nome oficial da cidade que foi palco dos atentados.
O JB Online, ainda que de forma mais timída, também atribuiu a instabilidade politíca indiana aos muçulmanos (tomando emprestado um discurso quase preconceituoso da era Bush).
Estadão
A cobertura da Folha buscou fontes neutras e conseguiu uma matéria clara, contextualizada e desenvolvida de um modo mais adequado, abrangendo outros aspectos para explicar a atual situação indiana.
Novas informações da AFP

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