por Paula Sacchetta
Outra coisa sobre a qual os jornais não falam é o apartheid palestino, que ocorre desde 1948, pois falar contra o Estado de Israel ou suas políticas é proibido e anti-semita. Que fique claro, aqui não é, é apenas analisar a política de um estado que oprime e destrói outro povo. São coisas muito, muito diferentes.
Não se pode falar que o Estado de Israel é um estado racista e tem uma sociedade racista já que “seu parlamento legisla que 13% das terras do país só podem ser vendidas para judeus”, nem que em 60 anos “o país teve apenas um ministro árabe” e, muito menos, que “75% dos israelenses admitem que se recusariam a ter um árabe como vizinho”. Isso não pode ser dito, mas quem diz é o jornalista israelense, Yonatan Mendel, já citado em outro artigo desse blog.
Ser conta o Estado de Israel ou expor suas mentiras e contradições é anti-semitismo. Mas chamar todo e qualquer árabe de “fundamentalista” ou “terrorista” não é preconceito. O Hezbollah, por exemplo, é descrito pela mídia como organização (palavra que carrega certo sentido pejorativo e anti-oficial) e não como movimento político. É descrito também como fundamentalista.
Em 1982, quando Israel invadiu o sul do Líbano esse movimento surgiu para tentar libertar seu país. O que não se diz, porém, é que o movimento não é fundamentalista, pois defende um estado islâmico, mas não visa acabar com o poder legislativo, nem exclui de seus membros indivíduos de outras religiões que não a muçulmana. Sua luta é, sobretudo, de libertação nacional e não religiosa. O próprio líder do Hezbollah disse que o movimento não existiria se o Líbano não fosse invadido. Qualquer um que estude o real significado da palavra fundamentalismo saberá usá-la corretamente e não apenas para discriminar um povo.
Aliás, procurando no Dicionário eletrônico Houaiss, achei o real significado da palavra: “movimento religioso e conservador, nascido entre os protestantes dos E.U.A. no início do século, que enfatiza a interpretação literal da Bíblia como fundamental à vida e à doutrina cristãs [Embora militante, não se trata de movimento unificado, e acaba denominando diferentes tendências protestantes do sXX.]“.
Eu mesma me surpreendi com esse verbete. Os Estados Unidos, principal país na “Guerra contra o Terror” e disseminador da tal democracia mundo afora, usam a palavra “fundamentalismo” para discriminar povos árabes, muçulmanos e justificar suas ações terroristas. O que ninguém sabe – e não se diz na mídia – é que por trás da origem dessa palavra, tão negativa segundo o próprio país, está ele mesmo. No mínimo contraditório e hipócrita.
Além de todos esse rótulos e preconceitos da mídia, ainda pesa sobre o povo palestino uma política de apartheid, sobre a qual nada se fala. Desde a Resolução 181, da ONU, quando se constituiu o Estado de Israel se dissemina tanto pela mídia quanto pelos sionistas o mito de “uma terra sem povo para um povo sem terra”. Essa falsa idéia, de que não existia um povo palestino, foi um dos mecanismos que permitiu a invasão daquele território por grupos sionistas. (leia uma matéria sobre isso no Brasil de Fato).
Além da matéria da Piauí (uma exceção na grande mídia), o jornal Brasil de Fato é um dos poucos que descreve com realismo a verdadeira barbárie que ocorre com o povo palestino. Conta com todas as letras, que sim, ocorre um apartheid naquela região há 60 anos. Contam que “em 2004, o governo de Israel iniciou a construção de um muro com 700 quilômetros de extensão, que isolou 160 mil famílias palestinas, além de ter deslocado 115 mil famílias”. Nos territórios ocupados, os colonos judeus têm uma estrada e os palestinos têm de passar por rotas alternativas ou túneis. Mas não, não se pode falar em apartheid, é uma palavra forte demais e pode beirar o anti-semitismo, certo? Pode-se discriminar todo e qualquer árabe, mas não expor as políticas racistas de um estado.