O Apartheid Palestino

29 10 2008

por Paula Sacchetta

Outra coisa sobre a qual os jornais não falam é o apartheid palestino, que ocorre desde 1948, pois falar contra o Estado de Israel ou suas políticas é proibido e anti-semita. Que fique claro, aqui não é, é apenas analisar a política de um estado que oprime e destrói outro povo. São coisas muito, muito diferentes.

Não se pode falar que o Estado de Israel é um estado racista e tem uma sociedade racista já que “seu parlamento legisla que 13% das terras do país só podem ser vendidas para judeus”, nem que em 60 anos “o país teve apenas um ministro árabe” e, muito menos, que “75% dos israelenses admitem que se recusariam a ter um árabe como vizinho”. Isso não pode ser dito, mas quem diz é o jornalista israelense, Yonatan Mendel, já citado em outro artigo desse blog.

Ser conta o Estado de Israel ou expor suas mentiras e contradições é anti-semitismo. Mas chamar todo e qualquer árabe de “fundamentalista” ou “terrorista” não é preconceito. O Hezbollah, por exemplo, é descrito pela mídia como organização (palavra que carrega certo sentido pejorativo e anti-oficial) e não como movimento político. É descrito também como fundamentalista.

Em 1982, quando Israel invadiu o sul do Líbano esse movimento surgiu para tentar libertar seu país. O que não se diz, porém, é que o movimento não é fundamentalista, pois defende um estado islâmico, mas não visa acabar com o poder legislativo, nem exclui de seus membros indivíduos de outras religiões que não a muçulmana. Sua luta é, sobretudo, de libertação nacional e não religiosa. O próprio líder do Hezbollah disse que o movimento não existiria se o Líbano não fosse invadido. Qualquer um que estude o real significado da palavra fundamentalismo saberá usá-la corretamente e não apenas para discriminar um povo.

Aliás, procurando no Dicionário eletrônico Houaiss, achei o real significado da palavra: “movimento religioso e conservador, nascido entre os protestantes dos E.U.A. no início do século, que enfatiza a interpretação literal da Bíblia como fundamental à vida e à doutrina cristãs [Embora militante, não se trata de movimento unificado, e acaba denominando diferentes tendências protestantes do sXX.]“.

Eu mesma me surpreendi com esse verbete. Os Estados Unidos, principal país na “Guerra contra o Terror” e disseminador da tal democracia mundo afora, usam a palavra “fundamentalismo” para discriminar povos árabes, muçulmanos e justificar suas ações terroristas. O que ninguém sabe – e não se diz na mídia – é que por trás da origem dessa palavra, tão negativa segundo o próprio país, está ele mesmo. No mínimo contraditório e hipócrita.

Além de todos esse rótulos e preconceitos da mídia, ainda pesa sobre o povo palestino uma política de apartheid, sobre a qual nada se fala. Desde a Resolução 181, da ONU, quando se constituiu o Estado de Israel se dissemina tanto pela mídia quanto pelos sionistas o mito de “uma terra sem povo para um povo sem terra”. Essa falsa idéia, de que não existia um povo palestino, foi um dos mecanismos que permitiu a invasão daquele território por grupos sionistas. (leia uma matéria sobre isso no Brasil de Fato).

Além da matéria da Piauí (uma exceção na grande mídia), o jornal Brasil de Fato é um dos poucos que descreve com realismo a verdadeira barbárie que ocorre com o povo palestino. Conta com todas as letras, que sim, ocorre um apartheid naquela região há 60 anos. Contam que “em 2004, o governo de Israel iniciou a construção de um muro com 700 quilômetros de extensão, que isolou 160 mil famílias palestinas, além de ter deslocado 115 mil famílias”. Nos territórios ocupados, os colonos judeus têm uma estrada e os palestinos têm de passar por rotas alternativas ou túneis. Mas não, não se pode falar em apartheid, é uma palavra forte demais e pode beirar o anti-semitismo, certo? Pode-se discriminar todo e qualquer árabe, mas não expor as políticas racistas de um estado.





Como o jornalismo trata os povos árabes

15 10 2008

por Paula Sacchetta

O Oriente Médio antes de 11 de setembro de 2001 era tido como mágico e misterioso. Hoje, para a grande mídia é o berço do terrorismo e do fundamentalismo. A mídia passou a tratar os povos árabes como terroristas, fundamentalistas e perigosos para a democracia ocidental. Mas, afinal, que democracia é essa onde não são levadas em conta diferenças culturais e, muito menos, soberanias nacionais? Que democracia é essa tão pregada pela mídia e pelo Senhor do Mundo, mister Bush, onde um ditador que mata milhares de civis é enforcado – prática da Idade Média, usada em pleno século XXI – e outro invade e bombardeia países há mais de sete anos e nada acontece?

Nos jornais e revistas de grande circulação, mais uma vez, não vemos o número de mortos em Bagdá, desde a invasão do Iraque pelos EUA em 2003, mas uma nota: “Bush foca o terror: o presidente dos EUA, George W. Bush, destacou ontem a necessidade de reforçar o combate ao terrorismo no mundo. Bush acusou Síria e Irã de patrocinarem o terror e defendeu sanções mais rigorosas contra o Irã e a Coréia do Norte por conta de seus programas nucleares (…).” (jornal Metro, 29/09/2008) E o terrorismo de Bush? Desse, ninguém fala. Esse, ninguém combate.

Na Folha de S. Paulo, um “terrorista suicida” mata 19 pessoas e deixa outras 72 feridas, entre elas, mulheres e crianças. Não se diz porque esses atentados acontecem. Nem que o povo iraquiano luta há mais de cinco anos contra os soldados do império, que invadem seus lares e matam suas famílias. Se diz sim, ainda na Folha, que “as condições no Iraque e particularmente em Bagdá são consideradas as melhores dos últimos quatro anos, segundo dados dos EUA, graças, parcialmente, ao aumento do contingente militar americano em campo a partir de 2007″.

Então os iraquianos são mesmo loucos! Terroristas e fundamentalistas. Deveriam estar agradecendo a invasão, mas não, ao invés disso, lutam contra os soldados. Assim, o povo dos EUA também é louco. Porque nem eles apóiam seu presidente? Porque o índice de apoio da população dos EUA à invasão do Iraque é quase tão baixo quanto o apoio à Guerra do Vietnã? Vai entender…

Uma matéria da revista Piauí, de maio de 2008, de Yonatan Mendel, fala do jornalismo israelense. No vocabulário de tal jornalismo, os árabes são terroristas suicidas, matam civis mulheres e crianças, seqüestram e alegam. Israel apenas responde e se protege da violência Palestina. Nunca mata civis, mulheres e crianças com seus mísseis. Nunca se diz que seus mísseis caem sobre casas e hospitais, mas se fala sobre “assassinatos dirigidos” à lideres, sempre de altíssimo escalão dos grupos “terroristas” e “fundamentalistas”. As Forças de Defesa de Israel nunca alegam, confirmam.

O jornalista israelense conta: “numa época em que havia muitas incursões israelenses em Gaza, perguntei o seguinte aos meus colegas: ‘Se um palestino armado cruza a fronteira, entra em Israel, dirige até Tel Aviv e atira em pessoas nas ruas, ele será o terrorista, e nós seremos as vítimas, certo? Porém, se as FDI cruzam a fronteira, dirigem vários quilômetros Gaza adentro e começam a disparar contra os atiradores palestinos, quem é o terrorista e quem é o que resiste? Como é possível que os palestinos que vivem nos territórios ocupados nunca possam recorrer à autodefesa, enquanto o Exército israelense é sempre o defensor?’”

Hamas ou Hezbollah são descritos como organizações e não partidos ou movimentos políticos que surgiram para proteger seu povo e que só têm tanto apelo popular por conta da situação em que se encontram a Palestina e o Líbano.

E fica uma pergunta: nossa mídia, brasileira, age de forma diferente da israelense? Porque um jornal que se diz “apartidário e multicultural”, como a Folha de S. Paulo, coloca sob a máscara de notícias, opiniões preconceituosas e discursos falaciosos?





O sapato do premiê é mais importante!

30 09 2008

por Paula Sacchetta 

Na capa da Folha de S. Paulo, nada sobre o Oriente Médio. No Estadão também não. Nas principais revistas alguma coisa? Nada. O que encontramos? Uma notinha no jornal Metro: “Três mulheres de 19 anos se recusaram a servir ao Exército de Israel e foram presas. Omer Goldman, Miya Tamarin e Tamar Katz deviam se alistar ontem para prestar o serviço militar obrigatório, mas não compareceram”. Na página “Corrida”, nova seção da Folha, do dia 24 de setembro, há uma foto grande com a seguinte legenda: “O premiê de Israel, Ehud Olmert, que renunciou e governa interinamente, perde sapato ao chutar bola em evento”.

Serão essas notícias realmente importantes? Será que aquele jornalismo imparcial e objetivo existe aí? Em meras notas, como estas, podemos perceber – ou lembrar – que não, esse tipo de jornalismo não existe e nunca existiu. Além do jornalismo ser exercido de forma parcial e subjetiva, pode simplesmente não ser exercido. Explico melhor: muitas vezes o simples fato de dar alguma notícia ou deixar de dá-la já é subjetivo. No Oriente Médio, no caso, é muito mais importante noticiar que três jovens israelenses foram presas do que informar que muitas famílias palestinas que moram na Faixa de Gaza estão sem água e sem luz por conta de cortes israelenses. Isso não está na capa dos jornais nem das revistas. Está escrito, por exemplo, no relatório do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, do fim de 2007, que não é amplamente divulgado por aí e que tem, com certeza, menos leitores que a Folha ou o Estado.

É mais importante mostrar o ex-premiê israelense perdendo um sapato do que explicar porque ele renunciou, acuado pelas acusações de envolvimento em esquemas de corrupção. Ou ainda, achamos em poucos sites, depois de muito procurar, um pronunciamento de Olmert, do dia 29 de setembro, a favor da retirada de colonos judeus em partes da Palestina. Como ele mesmo afirmou, o que ele disse nunca foi dito antes por outro líder israelense. Talvez por isso e porque sua fala é a favor do povo palestino é que ela foi pouco divulgada.

É disso que vou falar nesta coluna, durante alguns meses. Tentarei mostrar o que a mídia faz, o que esconde e as notícias que deixa de dar. E que fique claro, não acredito no jornalismo imparcial e objetivo, nem pretendo exercê-lo. A coluna será composta por artigos. Acredito num jornalismo político e que toma posições. O mais importante, porém, é deixar opiniões e posições claras, e não mascará-las como sob o rótulo de “fato” ou “notícia”, nem escolher cada dia um lado para defender e assim, praticar um jornalismo esquizofrênico sob o título de “pluralista”.

Deixo vocês com um poema de um poeta português, Fernando Correia Pina, que, para mim, mostra como, infelizmente, a mídia hierarquiza as “notícias”, sobretudo no que diz respeito ao Oriente Médio.

Saldo Negativo

Dói muito mais arrancar um cabelo a um europeu
que amputar uma perna, a frio, a um africano.

Passa mais fome um francês com três refeições por dia
que um sudanês com um rato por semana.

É muito mais doente um alemão com gripe
que um indiano com lepra.

Sofre muito mais uma americana com caspa
que uma iraquiana sem leite para os filhos.

É mais perverso cancelar o cartão de crédito a um belga
que roubar o pão da boca a um tailandês.

É muito mais grave deitar um papel para o chão na Suíça
que queimar uma floresta inteira no Brasil.

É mais obscena a falta de papel higiênico num lar sueco
que a de água potável em dez aldeias do Sudão.

É mais inconcebível a escassez de gasolina na Holanda
que a de insulina nas Honduras.

É mais revoltante um português sem telemóvel
que um moçambicano sem livros para estudar.

É mais triste uma laranjeira seca num colonato hebreu
que a demolição de um lar na Palestina.

Traumatiza mais a falta de uma Barbie a uma menina inglesa
que a visão do assassínio dos pais a um menino ugandês.

E isto não são versos
isto são débitos
numa conta sem provisão do ocidente.








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